CLUBE DO MISTÉRIO
- A CASA DA BRUXA -
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Um conto de horror por Juliano Dall'Agnol
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- Era somente uma
brincadeira.
- Só uma
brincadeirinha.
- Por favor senhora,
não me mate!
Por mais
que eu gritasse ela não me ouvia. Seus gritos estridentes abafavam qualquer
barulho, seja dos meu gritos ou de qualquer som vindo da floresta. Quanto mais
eu corria, mais para dentro da floresta eu entrava. Sabia que estava indo para
o lado contrário da cidade. No entanto meu desespero não deixava que eu controlasse
minhas pernas, por isso corria desesperadamente tentando me desvencilhar dos
seus ataques.
A cada
curva eu ouvia o estrondo de galhos quebrando atrás de mim. Quando finalmente
achei que tinha conseguido enganá-la, ela estava cada vez mais perto, como se
tivesse algum tipo de visão noturna ou sensores como o alienígena no filme “O
Predador®”. Bem que eu podia ter trazido uns óculos militares de visão noturna
comigo, se soubesse que estávamos enfrentando algo sobrenatural de verdade. Um
lança-chamas também vinha a a calhar, talvez umas bombas incendiárias, mas não
sei se fogo realmente funciona com bruxas ou se isso é somente uma lenda da
idade média. Não devia ter deixado de fazer o serviço militar obrigatório,
talvez eu conseguiria sair mais rápido deste sufoco se tivesse um mínimo de
experiência do treinamento militar. Realmente as inúmeras horas perdidas
jogando “Call of Duty®: Ghosts” não serviram para muita coisa.
Quem dera
isso fosse somente um jogo virtual, mas a cada grito daquela figura
fantasmagórica, de cabelos brancos e dentes pontudos ao meu encalço me faz
lembrar que é tudo bem real. Algo um tanto clichê, como aqueles filmes B que
passavam na madrugada. Mas nunca imaginei que ao vivo fosse tão assustador.
Quase morri de pavor quando vi a transformação daquela senhora tão carinhosa em
uma bruxa sanguinária, o sangue jorrando dos corpos quando tiveram os membros
arrancados, o ataque dos fantasmas, demônios, ou seja lá o que forem. Nós
trouxemos eles de volta do além com aquela tábua ouija e tudo aquilo é real,
até mesmo o sangue que cobre metade do meu corpo. Sangue do Paul, quando teve seu
corpo dilacerado na minha frente por aquela maldita.
- Meu Deus, o que eu
fiz com meus amigos.
- Vou queimar no
inferno por isso.
E o inferno
estava cada vez mais próximo. Quando vi aquele tronco voar sobre minha cabeça
sabia que o fim estava próximo. Desci uma ladeira o mais rápido que pude e me
agarrei em uma árvore antes de perder o equilíbrio. Continuei a descida até
chegar próximo a entrada de uma caverna.
- Tudo o que eu
preciso - pensei comigo mesmo.
- Mais uma caverna
escura cheia de insetos venenosos, ratos gigantes, zumbis e fantasmas
rastejando pelo teto.
Rapidamente
tirei a minha camisa rasgada e joguei para dentro da caverna, esperando que ela
seguisse o rastro para dentro dela e se perdesse em um labirinto de corredores.
Com isso ganharia tempo. Não sei quanto tempo, mas o suficiente para recuperar
o fôlego e continuar minha fuga. Segui pela lateral da caverna, beirando um
penhasco. Vi que tinha uma trilha, e esperava que fosse ter alguma rota de fuga
que me ajudasse a despistar daquela maldita.
- Maldita. Maldita
bruxa.
- Matou todos eles.
Todos eles.
Jennifer estava se
formando no colégio. Iria cursar artes visuais na faculdade e depois se mudar
para Lucca na Itália, para trabalhar com restauração. Fazia umas pinturas
incríveis e super realistas. Ela me
ajudou a desenhar as inscrições da tábua ouija, e copiar os textos daqueles
livros antigos. Sua caligrafia era incrível e memorizava cada palavra que
copiava, tanto que me ajudou nos ensaios da “Cerimônia do Encanto”, como
chamamos o evento. Estava sempre muito nervoso, pois sabia que tudo aquilo na
verdade era mais para impressionar ela com meu trabalho da faculdade de cinema do
que meus amigos. Mas ela conseguia me deixar calmo quando pegava na minha mão e
sempre dizia que iria dar tudo certo.
E deu tudo certo a princípio, tão
certo que consegui fazer o filme de terror que tanto queria, com direito a
efeitos visuais de verdade, como consegui um final digno dos filmes de “George
Romero”, com muitas mortes e sangue para todo o lado. No entanto o final feliz
que eu previa não aconteceu. Vi quando aquela sombra arrastou para outro cômodo
a Jennifer abafando seus gritos e quando a bruxa me jogou pela janela da casa
senti que a única forma de sobreviver era pedir ajuda ao Professor Leiton, ele
saberia o que fazer. Se Jennifer ainda estiver viva ele seria o único a me
ajudar.
Eu devia ter seguido seus
conselhos, não misturar ficção com forças que eu desconhecia. Achei que ele
estava brincando, afinal ele sempre teve fama de maluco. Ouvi várias histórias
dele desde que entrei na faculdade e cada uma me deixava mais impressionado com
a criatividade de meus colegas. Uns diziam que ele era um ex-detento que matou
toda a família em um ritual satânico. Outros contavam sobre suas viagens ao
Haiti para aprender sobre o ocultismo e como transformar pessoas em zumbis,
tanto que os seus alunos eram assim chamados. O professor Leiton tinha uma
tatuagem estranha em um dos braços, que eu vi um dia que entrei no banheiro e
ele estava lavando uma mancha de tinta na camisa. Parecia uma inscrição antiga,
pensei que fosse algo na língua dos elfos, já que ele era fã dos livros de J.
R. R. Tolkien, principalmente do livro “O Silmarillion®” que ele sempre falava
que era bem melhor que a trilogia “O Senhor dos Anéis”. Ele se gabava que sabia
falar a língua dos elfos fluentemente, como se alguém se importasse com isso.
Sua sala era um verdadeiro museu de esquisitices. Me lembro quando entrei nela
pela primeira vez. Cartazes de filmes de terror, máscaras africanas, animais
empalhados, livros antigos, objetos antigos, uma adaga inca em cima da mesa que
ele dizia usada para matar um demônio que atacará uma aldeia em busca de uma
virgem.
Apesar de todas as histórias que
ouvia eu sabia que ele seria perfeito para fazer meu trabalho. Passávamos horas
discutindo filmes de terror, psicologia, história antiga e o meu tópico
favorito: o sobrenatural. Levei vários livros para ele ver, os quais comprei em
sebos, pelo eBay e outros que consegui com um vizinho da minha avó que era
colecionador de livros antigos. Quando ele morreu me deixou de herança sua
coleção. Quando levei os livros sobre bruxaria vi nos olhos de Leiton que
aquilo era realmente importante e valioso, mas nunca achei que fosse ser o
motivo de minha desgraça e da morte de meus amigos, Paul, Mike, Judi, Carla e
Jennifer.
- Jennifer, o que foi
que eu fiz? Achei que ele estava apenas tendo mais um dos seu surtos de loucura
quando esquecia de tomar os calmantes.
- Professor Leiton,
devia ter acreditado que aquilo era real. Os inscritos, a invocação, a tábua
ouija. - Tudo real.
Não ouvi
mais o som da bruxa enquanto contornava a caverna. Deve ter entrado na caverna
seguindo o rastro de minha camisa. Isto por um momento me acalmou e consegui
respirar fundo e prestar atenção no precipício. Correndo nesta velocidade, um
passo em falso seria minha morte. Não conseguia olhar para trás, se ela ainda
estivesse por perto, talvez em silêncio para me atacar em uma emboscada.
Realmente penso como os filmes de terror, onde ninguém escapa, onde a morte
sempre acha uma maneira de ganhar. Estava contornando a estreita beirada da montanha.
Para a minha sorte aquela caverna deve ter levado aquela maldita para as
profundezas. Espero que ela fique por lá por um bom tempo, o tempo suficiente
para eu chegar a civilização e procurar ajuda do professor.
Estava
cansado, a câmera digital presa em meu pulso estava destruída de tanto bater
nas arvores e pedras, mas pelo menos o cartão de memória está intacto. Devo ter
pego alguma imagem do que aconteceu, para provar ao professor que ele estava
certo, que a bruxaria é real, que aquela senhora é uma feiticeira maligna e
cruel e que matou meus amigos do “Clube do Mistério”. Assim chamamos o nosso
grupo de pesquisa para o projeto do filme. Fiz até um cartaz estilo os filmes B
para colocar na porta da sala de estudos que consegui em troca de meu estágio
no estúdio de áudio visual. Ninguém chegava perto da nossa sala, pois a imagens
daquele monstro que Jennifer desenhou é tão realista que afastava até mesmo os
mais crédulo dos alunos. Isso me ajudou, já que ninguém poderia saber que
estava recebendo ajuda de fora da faculdade. Era engraçado ver meus amigos se
fazendo passar por alunos e o Paul por professor. O paul chegou até mesmo ter
um caso com uma das professoras da faculdade de história, Margareth Wittmore.
Me lembro que ele prometeu não contar nada para ela, mas ainda tenho minha
dúvidas, pois ela vivia questionando ele sobre nossa pesquisa que ele dizia
estar nos orientando. Ela parecia estar interessada demais no assunto e as
vezes me parecia estranho ela estar sendo intrusiva demais gerando desconforto
na turma. Mas aquela faculdade estava cheia de figuras estranhas, mais uma não
era de se ficar impressionado.
Desde que
entrei na faculdade e iniciei este projeto parece que despertei o interesse de
todos no assunto, como se todos fossem faz de histórias de terror, não somente
o pessoal da faculdade, mas onde eu ia, padaria, cinema, biblioteca,
lanchonete, alguém perguntava como estava meu projeto do filme. O pessoal disse
que não ia ficar falando do filme, mas como toda a cidade do interior é difícil
guardar um segredo. Não que eu fosse me importar muito, mas boas ideias são
raras e eu gostaria muito de ganhar o primeiro lugar no festival de Sundance®.
Ser ovacionado com o filme de terror mais original e assustador da história do
cinema. Pena que talvez eu não vá sobreviver para terminar este filme e usem o
que tem neste cartão de memória para algum documentário do Discovery Channel.
Correndo
deste jeito uma pisada em falso é o fim, mas se diminuísse o passo seria uma
presa fácil. Vi uma descida a frente, mais larga, em meio as arvores tortas,
como se um urso grande tivesse feito um caminho para o pé da montanha. A
descida em meio as rochas dificultavam os meus passos, podendo torcer o pé se
pegasse um vão maior entre as pedras. Cheguei até uma parte mais alta que
precisava dar um salto. Caso caísse de mal jeito poderia ser um desastre.
Lembrei dos vídeos de Lepacour que vi
no Youtube, onde os caras pulam dobrando as pernas e saem rolando. Não parecia
ser tão difícil e o desespero e a visão horrenda daquela figura demoníaca atrás
de mim me dava motivação para tentar qualquer coisa. Cheguei na hora do pulo e
pareceu mais alto do que eu imaginava. Tentei parar mas estava muito embalado
para o salto, não tinha como parar se não poderia cair de cabeça nas pedras. Vi
um galho no meio da queda atravessando a passagem. Foi quando pulei e na queda
me agarrei nele com todo o resto de força que eu tinha. Senti uma costela
quebrar e urrei de dor.
- Ela deve ter ouvido.
- Se ela estiver perto
me ouviu com certeza.
O grito ecoou tão forte que ouvi
lobos uivarem. É o fim pensei. Ela vai descer o morro voando com aqueles dentes
afiados e me abocanhar aqui pendurado como uma isca num anzol. Mas nada
aconteceu. Passou alguns segundos e nada. Não conseguia me soltar do galho,
pois a dor era muito forte e não conseguia respirar direito. Olhei para baixo e
vi que a queda não seria tão fácil de realizar, ainda mais com uma costela
quebrada. Subi no tronco da árvore e vi que no final tinha um buraco que talvez
fosse até o pé da árvore. Rezando para que não tivesse nenhum animal morando
dentro da árvore me arrastei até a entrada e escorreguei pelo tronco me
agarrando como pude. A saída era um pouco apertada mas não foi complicada. Ainda
me enchi de farpas pois estava sem camisa. Nem senti os arranhões pois a dor na
costela era maior. Consegui tomar um ar, me encostando na parede em minha
frente e vi a descida iluminada pela luz da lua através das árvores. Falta
pouco, se estiver do lado certo da montanha chego na estrada que vai para a
faculdade e posso pedir ajuda para o professor Leiton. Ele certamente está lá
hoje, pois passa mais tempo na sua sala que em casa, e hoje tem uma daquelas
maratonas de filmes B no canal SCI-FI. Como ele não tem TV a cabo em casa fez
uma ligação na sala dele aproveitando-se da assinatura da faculdade. Passei
várias noites lá vendo filmes antigos, documentários e vídeos e imagens
assustadoras de fantasmas e outras coisas sobrenaturais que o professor recebia
pelo correio anonimamente. Talvez achassem que ele era um especialista na área,
ou alguns engraçadinhos da faculdade faziam isto só para importunar ele. Mas
agora pensando em vários destes filmes acredito que eram de pessoas da cidade
pedindo ajuda. Pois muitas coisas que vimos nos vídeos e naquelas fotos parecem
fazer sentido agora.
Meu coração parou quando ouvi
aquele grito de novo. Era ela. Estava em cima de mim. Vou morrer agora, pensei
comigo mesmo não sentindo mais a dor da costela quebrada. O pavor me amorteceu
como morfina. Senti como se as árvores em minha frente fechassem minha passagem
impedindo que corresse mais adiante. Senti uma tontura, acho que isto
prejudicou minha visão por um momento. O silêncio tomou conta do ambiente. O
que ela estava esperando para me matar?
Não sei de onde tomei coragem
para me virar e olhar para cima, esperando ver ela pela última vez e morrer de
pavor antes mesmo dela me tocar. Não havia nada la em cima. Olhei para todos os
lados e não a via. Está fazendo um jogo psicológico doentio para me punir. A
maldade tem várias formas de atacar. Ela é sedenta por sangue e pavor. Quanto
mais medo você tem, mais forças ela tem para te destruir. Parecia o professor Leiton falando. Ele é o mestre de te
deixar com os cabelos em pé. Ainda mais falando com aquela voz rouca naquela
sala mal iluminada. É pra manter um clima de mistério dizia ele sorrindo com
aquele sorriso amarelado de fumar charutos Cubanos.
Maldito silêncio, não sei se
morro correndo ou parado aqui mesmo, acho que ela está me dando estas duas
alternativas. Não aguentando mais a espera tomei coragem para encarar o medo de
frente, pois iria morrer de qualquer forma.
- Apareça maldita! Quer me matar então venha,
estou esperando!
Nenhum
movimento nas árvores, somente do vento batendo nos galhos cada vez mais forte.
Uma tempestade está vindo, pois sinto o cheiro da chuva. Se correr posso tentar
me desvencilhar dela por entre os galhos das árvores. A probabilidade imagino ser de uns dez
por cento e chance de sobreviver, talvez leve alguns arranhões e consiga pular
no rio que passa lá em baixo. Ela pode voar mas quem sabe não saiba nadar. Não
sinto mais tanta dor, a adrenalina está funcionando como um analgésico. É agora
ou nunca, vou descer correndo o mais rápido que puder – pensei comigo. Foi
neste momento que senti a presença dela, arrepiando todos os pelos de meu
corpo. Estava atrás de mim, me observando por entre as pedras da parede da
caverna. Ela realmente desceu a montanha por entre as passagens até chegar em
mim. Eu senti que ela me observava por uma abertura na parede, mas acreditei
que era impossível ela derrubar aquelas pedras. Eu senti que ela me observava
naquela escuridão e me prendia de pavor, se fortalecendo com meu medo. Dei um
passo para trás quando ouvi ela dizendo meu nome lentamente com aquela voz
aterrorizante.
- Julian.
Descendo o
mais rápido que pude até chegar a estrada consegui uma carona de um
caminhoneiro barbudo, todo tatuado que era fã de Mettalica. Ouvindo “Enter Sandman®”, estava a caminho da faculdade. Não sentia meus pés nem a dor nas
costelas. Durante todo o trajeto eu repetia comigo mesmo a mesma pergunta:

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