27.8.14

CLUBE DO MISTÉRIO - A CASA DA BRUXA - Um conto de horror



CLUBE DO MISTÉRIO 
- A CASA DA BRUXA -
 .........................................................................................................
Um conto de horror por Juliano Dall'Agnol
 ..........................................................................................................

- Era somente uma brincadeira.
- Só uma brincadeirinha.
- Por favor senhora, não me mate!

            Por mais que eu gritasse ela não me ouvia. Seus gritos estridentes abafavam qualquer barulho, seja dos meu gritos ou de qualquer som vindo da floresta. Quanto mais eu corria, mais para dentro da floresta eu entrava. Sabia que estava indo para o lado contrário da cidade. No entanto meu desespero não deixava que eu controlasse minhas pernas, por isso corria desesperadamente tentando me desvencilhar dos seus ataques.
            A cada curva eu ouvia o estrondo de galhos quebrando atrás de mim. Quando finalmente achei que tinha conseguido enganá-la, ela estava cada vez mais perto, como se tivesse algum tipo de visão noturna ou sensores como o alienígena no filme “O Predador®”. Bem que eu podia ter trazido uns óculos militares de visão noturna comigo, se soubesse que estávamos enfrentando algo sobrenatural de verdade. Um lança-chamas também vinha a a calhar, talvez umas bombas incendiárias, mas não sei se fogo realmente funciona com bruxas ou se isso é somente uma lenda da idade média. Não devia ter deixado de fazer o serviço militar obrigatório, talvez eu conseguiria sair mais rápido deste sufoco se tivesse um mínimo de experiência do treinamento militar. Realmente as inúmeras horas perdidas jogando “Call of Duty®: Ghosts” não serviram para muita coisa.
            Quem dera isso fosse somente um jogo virtual, mas a cada grito daquela figura fantasmagórica, de cabelos brancos e dentes pontudos ao meu encalço me faz lembrar que é tudo bem real. Algo um tanto clichê, como aqueles filmes B que passavam na madrugada. Mas nunca imaginei que ao vivo fosse tão assustador. Quase morri de pavor quando vi a transformação daquela senhora tão carinhosa em uma bruxa sanguinária, o sangue jorrando dos corpos quando tiveram os membros arrancados, o ataque dos fantasmas, demônios, ou seja lá o que forem. Nós trouxemos eles de volta do além com aquela tábua ouija e tudo aquilo é real, até mesmo o sangue que cobre metade do meu corpo. Sangue do Paul, quando teve seu corpo dilacerado na minha frente por aquela maldita.



- Meu Deus, o que eu fiz com meus amigos.
- Vou queimar no inferno por isso.

            E o inferno estava cada vez mais próximo. Quando vi aquele tronco voar sobre minha cabeça sabia que o fim estava próximo. Desci uma ladeira o mais rápido que pude e me agarrei em uma árvore antes de perder o equilíbrio. Continuei a descida até chegar próximo a entrada de uma caverna.

- Tudo o que eu preciso - pensei comigo mesmo.
- Mais uma caverna escura cheia de insetos venenosos, ratos gigantes, zumbis e fantasmas rastejando pelo teto.

            Rapidamente tirei a minha camisa rasgada e joguei para dentro da caverna, esperando que ela seguisse o rastro para dentro dela e se perdesse em um labirinto de corredores. Com isso ganharia tempo. Não sei quanto tempo, mas o suficiente para recuperar o fôlego e continuar minha fuga. Segui pela lateral da caverna, beirando um penhasco. Vi que tinha uma trilha, e esperava que fosse ter alguma rota de fuga que me ajudasse a despistar daquela maldita.

- Maldita. Maldita bruxa.
- Matou todos eles. Todos eles.

Jennifer estava se formando no colégio. Iria cursar artes visuais na faculdade e depois se mudar para Lucca na Itália, para trabalhar com restauração. Fazia umas pinturas incríveis e  super realistas. Ela me ajudou a desenhar as inscrições da tábua ouija, e copiar os textos daqueles livros antigos. Sua caligrafia era incrível e memorizava cada palavra que copiava, tanto que me ajudou nos ensaios da “Cerimônia do Encanto”, como chamamos o evento. Estava sempre muito nervoso, pois sabia que tudo aquilo na verdade era mais para impressionar ela com meu trabalho da faculdade de cinema do que meus amigos. Mas ela conseguia me deixar calmo quando pegava na minha mão e sempre dizia que iria dar tudo certo.
E deu tudo certo a princípio, tão certo que consegui fazer o filme de terror que tanto queria, com direito a efeitos visuais de verdade, como consegui um final digno dos filmes de “George Romero”, com muitas mortes e sangue para todo o lado. No entanto o final feliz que eu previa não aconteceu. Vi quando aquela sombra arrastou para outro cômodo a Jennifer abafando seus gritos e quando a bruxa me jogou pela janela da casa senti que a única forma de sobreviver era pedir ajuda ao Professor Leiton, ele saberia o que fazer. Se Jennifer ainda estiver viva ele seria o único a me ajudar.
Eu devia ter seguido seus conselhos, não misturar ficção com forças que eu desconhecia. Achei que ele estava brincando, afinal ele sempre teve fama de maluco. Ouvi várias histórias dele desde que entrei na faculdade e cada uma me deixava mais impressionado com a criatividade de meus colegas. Uns diziam que ele era um ex-detento que matou toda a família em um ritual satânico. Outros contavam sobre suas viagens ao Haiti para aprender sobre o ocultismo e como transformar pessoas em zumbis, tanto que os seus alunos eram assim chamados. O professor Leiton tinha uma tatuagem estranha em um dos braços, que eu vi um dia que entrei no banheiro e ele estava lavando uma mancha de tinta na camisa. Parecia uma inscrição antiga, pensei que fosse algo na língua dos elfos, já que ele era fã dos livros de J. R. R. Tolkien, principalmente do livro “O Silmarillion®” que ele sempre falava que era bem melhor que a trilogia “O Senhor dos Anéis”. Ele se gabava que sabia falar a língua dos elfos fluentemente, como se alguém se importasse com isso. Sua sala era um verdadeiro museu de esquisitices. Me lembro quando entrei nela pela primeira vez. Cartazes de filmes de terror, máscaras africanas, animais empalhados, livros antigos, objetos antigos, uma adaga inca em cima da mesa que ele dizia usada para matar um demônio que atacará uma aldeia em busca de uma virgem.
Apesar de todas as histórias que ouvia eu sabia que ele seria perfeito para fazer meu trabalho. Passávamos horas discutindo filmes de terror, psicologia, história antiga e o meu tópico favorito: o sobrenatural. Levei vários livros para ele ver, os quais comprei em sebos, pelo eBay e outros que consegui com um vizinho da minha avó que era colecionador de livros antigos. Quando ele morreu me deixou de herança sua coleção. Quando levei os livros sobre bruxaria vi nos olhos de Leiton que aquilo era realmente importante e valioso, mas nunca achei que fosse ser o motivo de minha desgraça e da morte de meus amigos, Paul, Mike, Judi, Carla e Jennifer.

- Jennifer, o que foi que eu fiz? Achei que ele estava apenas tendo mais um dos seu surtos de loucura quando esquecia de tomar os calmantes.
- Professor Leiton, devia ter acreditado que aquilo era real. Os inscritos, a invocação, a tábua ouija. - Tudo real.

            Não ouvi mais o som da bruxa enquanto contornava a caverna. Deve ter entrado na caverna seguindo o rastro de minha camisa. Isto por um momento me acalmou e consegui respirar fundo e prestar atenção no precipício. Correndo nesta velocidade, um passo em falso seria minha morte. Não conseguia olhar para trás, se ela ainda estivesse por perto, talvez em silêncio para me atacar em uma emboscada. Realmente penso como os filmes de terror, onde ninguém escapa, onde a morte sempre acha uma maneira de ganhar. Estava contornando a estreita beirada da montanha. Para a minha sorte aquela caverna deve ter levado aquela maldita para as profundezas. Espero que ela fique por lá por um bom tempo, o tempo suficiente para eu chegar a civilização e procurar ajuda do professor.
            Estava cansado, a câmera digital presa em meu pulso estava destruída de tanto bater nas arvores e pedras, mas pelo menos o cartão de memória está intacto. Devo ter pego alguma imagem do que aconteceu, para provar ao professor que ele estava certo, que a bruxaria é real, que aquela senhora é uma feiticeira maligna e cruel e que matou meus amigos do “Clube do Mistério”. Assim chamamos o nosso grupo de pesquisa para o projeto do filme. Fiz até um cartaz estilo os filmes B para colocar na porta da sala de estudos que consegui em troca de meu estágio no estúdio de áudio visual. Ninguém chegava perto da nossa sala, pois a imagens daquele monstro que Jennifer desenhou é tão realista que afastava até mesmo os mais crédulo dos alunos. Isso me ajudou, já que ninguém poderia saber que estava recebendo ajuda de fora da faculdade. Era engraçado ver meus amigos se fazendo passar por alunos e o Paul por professor. O paul chegou até mesmo ter um caso com uma das professoras da faculdade de história, Margareth Wittmore. Me lembro que ele prometeu não contar nada para ela, mas ainda tenho minha dúvidas, pois ela vivia questionando ele sobre nossa pesquisa que ele dizia estar nos orientando. Ela parecia estar interessada demais no assunto e as vezes me parecia estranho ela estar sendo intrusiva demais gerando desconforto na turma. Mas aquela faculdade estava cheia de figuras estranhas, mais uma não era de se ficar impressionado.
            Desde que entrei na faculdade e iniciei este projeto parece que despertei o interesse de todos no assunto, como se todos fossem faz de histórias de terror, não somente o pessoal da faculdade, mas onde eu ia, padaria, cinema, biblioteca, lanchonete, alguém perguntava como estava meu projeto do filme. O pessoal disse que não ia ficar falando do filme, mas como toda a cidade do interior é difícil guardar um segredo. Não que eu fosse me importar muito, mas boas ideias são raras e eu gostaria muito de ganhar o primeiro lugar no festival de Sundance®. Ser ovacionado com o filme de terror mais original e assustador da história do cinema. Pena que talvez eu não vá sobreviver para terminar este filme e usem o que tem neste cartão de memória para algum documentário do Discovery Channel.
            Correndo deste jeito uma pisada em falso é o fim, mas se diminuísse o passo seria uma presa fácil. Vi uma descida a frente, mais larga, em meio as arvores tortas, como se um urso grande tivesse feito um caminho para o pé da montanha. A descida em meio as rochas dificultavam os meus passos, podendo torcer o pé se pegasse um vão maior entre as pedras. Cheguei até uma parte mais alta que precisava dar um salto. Caso caísse de mal jeito poderia ser um desastre. Lembrei dos vídeos de Lepacour que vi no Youtube, onde os caras pulam dobrando as pernas e saem rolando. Não parecia ser tão difícil e o desespero e a visão horrenda daquela figura demoníaca atrás de mim me dava motivação para tentar qualquer coisa. Cheguei na hora do pulo e pareceu mais alto do que eu imaginava. Tentei parar mas estava muito embalado para o salto, não tinha como parar se não poderia cair de cabeça nas pedras. Vi um galho no meio da queda atravessando a passagem. Foi quando pulei e na queda me agarrei nele com todo o resto de força que eu tinha. Senti uma costela quebrar e urrei de dor.

- Ela deve ter ouvido.
- Se ela estiver perto me ouviu com certeza.

O grito ecoou tão forte que ouvi lobos uivarem. É o fim pensei. Ela vai descer o morro voando com aqueles dentes afiados e me abocanhar aqui pendurado como uma isca num anzol. Mas nada aconteceu. Passou alguns segundos e nada. Não conseguia me soltar do galho, pois a dor era muito forte e não conseguia respirar direito. Olhei para baixo e vi que a queda não seria tão fácil de realizar, ainda mais com uma costela quebrada. Subi no tronco da árvore e vi que no final tinha um buraco que talvez fosse até o pé da árvore. Rezando para que não tivesse nenhum animal morando dentro da árvore me arrastei até a entrada e escorreguei pelo tronco me agarrando como pude. A saída era um pouco apertada mas não foi complicada. Ainda me enchi de farpas pois estava sem camisa. Nem senti os arranhões pois a dor na costela era maior. Consegui tomar um ar, me encostando na parede em minha frente e vi a descida iluminada pela luz da lua através das árvores. Falta pouco, se estiver do lado certo da montanha chego na estrada que vai para a faculdade e posso pedir ajuda para o professor Leiton. Ele certamente está lá hoje, pois passa mais tempo na sua sala que em casa, e hoje tem uma daquelas maratonas de filmes B no canal SCI-FI. Como ele não tem TV a cabo em casa fez uma ligação na sala dele aproveitando-se da assinatura da faculdade. Passei várias noites lá vendo filmes antigos, documentários e vídeos e imagens assustadoras de fantasmas e outras coisas sobrenaturais que o professor recebia pelo correio anonimamente. Talvez achassem que ele era um especialista na área, ou alguns engraçadinhos da faculdade faziam isto só para importunar ele. Mas agora pensando em vários destes filmes acredito que eram de pessoas da cidade pedindo ajuda. Pois muitas coisas que vimos nos vídeos e naquelas fotos parecem fazer sentido agora.
Meu coração parou quando ouvi aquele grito de novo. Era ela. Estava em cima de mim. Vou morrer agora, pensei comigo mesmo não sentindo mais a dor da costela quebrada. O pavor me amorteceu como morfina. Senti como se as árvores em minha frente fechassem minha passagem impedindo que corresse mais adiante. Senti uma tontura, acho que isto prejudicou minha visão por um momento. O silêncio tomou conta do ambiente. O que ela estava esperando para me matar?
Não sei de onde tomei coragem para me virar e olhar para cima, esperando ver ela pela última vez e morrer de pavor antes mesmo dela me tocar. Não havia nada la em cima. Olhei para todos os lados e não a via. Está fazendo um jogo psicológico doentio para me punir. A maldade tem várias formas de atacar. Ela é sedenta por sangue e pavor. Quanto mais medo você tem, mais forças ela tem para te destruir. Parecia o  professor Leiton falando. Ele é o mestre de te deixar com os cabelos em pé. Ainda mais falando com aquela voz rouca naquela sala mal iluminada. É pra manter um clima de mistério dizia ele sorrindo com aquele sorriso amarelado de fumar charutos Cubanos.
Maldito silêncio, não sei se morro correndo ou parado aqui mesmo, acho que ela está me dando estas duas alternativas. Não aguentando mais a espera tomei coragem para encarar o medo de frente, pois iria morrer de qualquer forma.

 - Apareça maldita! Quer me matar então venha, estou esperando!

            Nenhum movimento nas árvores, somente do vento batendo nos galhos cada vez mais forte. Uma tempestade está vindo, pois sinto o cheiro da chuva. Se correr posso tentar me desvencilhar dela por entre os galhos das árvores.  A probabilidade imagino ser de uns dez por cento e chance de sobreviver, talvez leve alguns arranhões e consiga pular no rio que passa lá em baixo. Ela pode voar mas quem sabe não saiba nadar. Não sinto mais tanta dor, a adrenalina está funcionando como um analgésico. É agora ou nunca, vou descer correndo o mais rápido que puder – pensei comigo. Foi neste momento que senti a presença dela, arrepiando todos os pelos de meu corpo. Estava atrás de mim, me observando por entre as pedras da parede da caverna. Ela realmente desceu a montanha por entre as passagens até chegar em mim. Eu senti que ela me observava por uma abertura na parede, mas acreditei que era impossível ela derrubar aquelas pedras. Eu senti que ela me observava naquela escuridão e me prendia de pavor, se fortalecendo com meu medo. Dei um passo para trás quando ouvi ela dizendo meu nome lentamente com aquela voz aterrorizante.

- Julian.

            Descendo o mais rápido que pude até chegar a estrada consegui uma carona de um caminhoneiro barbudo, todo tatuado que era fã de Mettalica. Ouvindo “Enter Sandman®”, estava a caminho da faculdade. Não sentia meus pés nem a dor nas costelas. Durante todo o trajeto eu repetia comigo mesmo a mesma pergunta:

- Como ela sabia meu nome?

Obrigado por ler! A história continua na minha página do Wattpad

WEB COMICS



This is my comic strip about Juka, a nerd who loves junk food, movies, TV, games and his girlfriend Mary.
By his side we have his faithfull partner Betho, a smart dog who only thinks about food. You can see some of the comics in the english version below:






Ilustrações de capas de livros

Propostas de desenhos que eu fiz para capas de livros, uma sobre cinema, outra sobre o twitter e a última sobre redes sociais.